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Você Sabe do que Não Sabe? Acorrentados Dentro do “Sistema”

"Você se acha livre a fazer as escolhas da sua vida? A ironia dessa resposta é que só se aproximam da liberdade aqueles que reconhecem seus limites e prisões. Conhecer-se intimamente requer coragem de encarar as dores das limitações, mas é a partir dessa consciência que surge a possibilidade de fazer escolhas reais".




Você se acha livre a fazer as escolhas da sua vida? A ironia dessa resposta é que só se aproximam da liberdade aqueles que reconhecem seus limites e prisões. Conhecer-se intimamente requer coragem de encarar as dores das limitações, mas é a partir dessa consciência que surge a possibilidade de fazer escolhas reais. Escolhas que fogem de julgamentos e pré-conceitos, e vão de encontro a conceitos, fundamentadas em tudo que se é, e não no que se tenta ser ou imagina ser. Isso requer um ajuste fino das nossa percepções, que tendem a ser influenciadas por verdades externas; verdades que, quando mudam, nos tiram toda a base onde estávamos nos construindo. Como nos construir, então, com base em nossas verdades, únicas e inabaláveis, mas que por serem únicas correm o risco de não condizerem com as verdades dos outros?


A percepção controla a nossa vida. A maneira como enxergamos e percebemos o mundo reflete o nosso universo interno e afeta diretamente a nossa experiência externa. A realidade que vivenciamos é criada pelo nosso sistema de crenças e valores individuais, que determina a lente que usamos para filtrar as experiências que vivemos, os aprendizados que tiramos (ou não) e os padrões que repetimos. No caso de uma anoréxica, por exemplo, o que vemos é uma pessoa fraca e doente. Mas quando ela se olha no espelho, enxerga uma pessoa obesa. Uma percepção equivocada, portanto, pode custar a nossa vida.


Hoje, a grande maioria de nós confia nos cinco sentidos para captar as informações que julgamos importantes e gerar uma “boa” compreensão dos acontecimentos que nos rodeia. Por isso que a matéria é reconfortante – podemos ver e tocá-la; mas seu conforto é apenas uma ilusão. Desconsideramos que existem forças invisíveis atuando sobre nós que fogem do alcance dos sentidos. Existem diversas energias e influências que passam despercebidas por nós a toda hora. Nesse exato momento, ondas radioelétricas estão sendo transmitidas no ar. Não as sentimos, nem conseguimos ouví-las, e muitas vezes sequer lembramos delas. Basta um rádio para sintonizar sua frequência e revelar a sua existência. Elas fazem parte das forças que sabemos que não percebemos, assim como a interferência do governo na economia, alterações hormonais no corpo ou as referências que geramos nos nossos filhos. Ao mencioná-las, temos consciência da sua existência e percebemos que desconhecemos como e quando operam, mas seguimos respeitando que exerçam influências em nossas vidas.


Mas é com aquilo que não sabemos que não sabemos que devemos nos preocupar. O fato de desconhecermos forças invisíveis não quer dizer que não existam ou não nos afetem. O fato de serem invisíveis à nossa percepção lhes dá uma força proporcional à nossa ignorância, influenciando desapercebidamente nossas crenças e percepções; ou seja, a nossa vida. Contudo, só de reconhecer sua existência e aceitar nossas limitações já nos vemos automaticamente fortalecidos, despertos, abertos ao desconhecido, improvável e imprevisível, prontos para buscar além do que se apresenta. É em buscar além e não se contentar com o status quo que está o segredo da nossa evolução em um mundo que está ruindo em todos os seus aspectos: social, ambiental, político, econômico, bélico…


Em algum lugar do nosso consciente coletivo, existe a sabedoria de que as drogas são ruins, prejudicam a vida, causam dependência química e podem levar a morte. O combate ao tráfico de drogas exige um investimento público considerável das atenções e verbas governamentais (estimado em $51Bi nos EUA), sem contar a energia que consome em forma de preocupações e precauções do setor privado ao redor do mundo. Que o diga quem for pai e mãe. Mas o que são drogas? O que delimita o uso de drogas para cura e para dependência química? O que é vicio? A alienação dos viciados existe desde quando na história da humanidade? O problema está no viciado ou na substância química?


Parece óbvio: o que causa o vício são as drogas. Essa conclusão vem de experimentos realizados desde a década de 60, com ratos em gaiolas solitárias conhecidas como “caixas de Skinner”. De um lado ao rato é oferecido água, e do outro, drogas. O que se observou é que o rato passa a ignorar a água e escolher dosagens progressivas e excessivas de heroína, morfina, anfetamina, cocaína, e outras drogas até levar a sua morte precoce. A conclusão, portanto, é de que as drogas são extremamente viciantes, tornando-se uma ameaça a nossa sociedade. Isso foi o suficiente para tornar-se a base do discurso que o governo Nixon precisava para declarar “Guerra às drogas” em 1971, cujo real inimigo eram esquerdistas e negros. Ao associar a maconha com hippies e heroína com negros, Nixon conseguiu quebrar estes grupos criminalizando-os, gerando efeitos duradouros na visão da sociedade dos inimigos comuns a todos.


Nessa mesma época, Bruce K. Alexander começou a questionar se talvez houvesse falhas nos experimentos realizados até então sobre as drogas. Os ratos, assim como os humanos, são seres sociáveis, sexuais e trabalhadores. Se prisões solitárias enlouquecem homens, qual seria o efeito disso sobre os ratos? Será que as drogas não eram a maneira que os ratos encontravam de anestesiar a sua dor naquelas condições? Além disso, mesmo ao confiná-los a uma gaiola, sem nenhuma outra opção do que fazer além de escolher entre água ou drogas, ainda estamos muito distantes de conseguir reproduzir a realidade humana, em que podemos fazer escolhas entre possibilidades infinitas.


Em 1978, Bruce liderou um experimento em um cenário completamente diferente das gaiolas solitárias, o que ele chamou de “parque dos ratos”. O parque era repleto de tudo que o rato gosta: comida abundante, plataformas para brincar e latas para se esconder, e muita variedade de ratos para socializarem e transarem. Além de procriarem loucamente, quase nenhum rato nessas condições escolheu as drogas, e mesmo os que escolheram, a quantidade era mínima quando comparada ao grupo confinado em gaiolas isoladas, sem índices de compulsão nem de overdose. A conclusão do experimento é que o problema não está nas drogas, mas na gaiola. Isso coloca por água abaixo a crença de que as drogas são irresistivelmente viciantes e levanta a consciência de que quem busca as drogas talvez se sinta confinado e isolado na sociedade – engaiolados.


Houve uma experiência com seres humanos nessa mesma linha: a guerra do Vietnam. Os Americanos temiam que no retorno dos seus soldados, dos quais 20% usavam heroína, haveria um monte de zumbis viciados perambulando as ruas do país. Mas um estudo que os acompanhou de volta mostra que nenhum deles foram para centros de reabilitação nem sofreram de abstinência. 95% simplesmente pararam quando retornaram à casa. Entre lutar sóbrio em terras alheias, sob a constante ameaça de matar ou morrer, ou se anestesiar para esquecer aquela realidade, não é difícil imaginar porque alguns escolheram o último. Retornar à casa e reencontrar a família e os amigos deve ter o mesmo efeito de sair de uma gaiola solitária e cair no “parque dos ratos” humano.


É extremamente desconfortante reconhecer que nos alistamos à guerra de Nixon certos de que estávamos lutando por um ideal que nem o próprio Nixon tinha, realizando uma segunda agenda que desconhecemos. Mas perceber que a teoria das drogas sob a qual fomos criados é irreal, faz ruir bases intrínsecas do que acreditávamos e de tudo que construímos sobre eles. Pensa em todos os colegas que você olhou torto por saber que usavam drogas. E como a voz dos nossos pais ecoavam dentro de nós, repetindo como um mantra “eles são má influência”. O que o vício diz sobre eles e o que ele diz sobre nós? E a nossa influência neles?


O aumento global do uso e dependência química expõe uma vulnerabilidade na nossa sociedade, mas é apenas uma das crises de desconexão que estamos sofrendo. Somos seres que precisam se conectar e relacionar, assim como respirar e comer. Mas quando a vida nos derruba e nos sentimos isolados ou sozinhos, recorremos à primeira coisa que nos alivia dessas dores: sejam as redes sociais, compras, pornografia, relações disfuncionais ou drogas. E quanto mais berramos por ajuda nas nossas dores, mais nos encontramos isolados e alienados. Está na hora de olharmos para essa estrutura invisível que construímos, chamado de sociedade, e as dores que a compõem.


Quando colocamos a matéria e seu consumo em primeiro lugar, cria-se uma dicotomia de ganância ou medo. A sua crença sobre o mundo vai definir em qual lado desse sistema dual você estará. Se você cresceu vendo seus pais lutando para construir algo e constantemente falindo nesse processo, você provavelmente vai vibrar no medo. Mas se a sua referência foi de corrupção e safadeza sobre o outro, a sua busca será pela ganância. A repetição é a maior ferramenta para a construção das nossas crenças. Durante a nossa formação, aprendemos sobre a teoria da evolução baseado na genética hereditária de Darwin. Essa visão nos faz sentir escravos da nossa genética, confinados ao destino que ela nos der. Se a minha mãe é depressiva e morreu de câncer, as chances de seguir o mesmo caminho são altíssimas. Passar a vida acreditando nisso, ouvindo que esse será o meu destino dificilmente me levará a qualquer fim diferente. Em seu livro Biologia da Crença, o biólogo celular Bruce Lipton demonstra como esse fatalismo foi injetado nas nossas crenças, apresentando estudos revolucionários que mostram que o que afeta o desenvolvimento e formação das células é o ambiente. Um fator que Darwin excluiu de seus estudos.


Durante muito tempo, nos confinaram em gaiolas e passaram a nos oferecer duas opções: seguimos as conformidades de quem está no poder ou seremos marginalizados por ele. Aos poucos, passamos a consumir doses crescentes destas crenças pré-estabelecidas até nos percebermos viciados nelas. Toda e qualquer visão que exista é limitada, mas precisamos de uma para nos orientar. Os pensamentos do oriente são restritos às suas referências, assim como os do ocidente. Os brancos limitam sua percepção à sua história vivida, assim como negros, muçulmanos ou cristãos. Todo observador é limitado a uma parte do todo, sem que ninguém possua completamente a visão do todo. Mas quando uma nova observação é feita em uma das partes, ela inevitavelmente afeta o todo. Ninguém pode falar para o outro sobre o todo, mas o fato de nos reconhecermos como parte nos permite juntos descobrir o todo. Existe uma saída para a nossa gaiola e ela começa em percebemos que não sabemos que estamos presos nela.


Publicado na coluna do Infame: https://infame.us/2017/11/07/voce-sabe-do-que-nao-sabe/